Lucas
15. 24
“Porque este meu filho estava morto, e
reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se”.
Esta parábola foi
escrita num contexto em que os pecadores e os publicanos se aproximavam de
Cristo para ouvi-lo. Em contrapartida os fariseus e os escribas O questionavam,
dizendo, como Jesus poderia recebê-los e comer com tais pessoas?
Cristo lhes propôs
algumas parábolas: a parábola da ovelha perdida, a parábola da dracma perdida e
a parábola do filho pródigo, que iremos tratar neste artigo.
Teria esta parábola,
sido nomeada erroneamente pelo seu tradutor? Pois o foco principal do texto não
foi no filho que partiu, quanto menos no que ficou. Na verdade o texto
evidencia a maneira amorosa que o pai estabelece uma relação, incondicional,
com ambos os filhos.
Ela se divide em três
partes, a saber:
1.
O
filho que se foi;
2.
O
filho mais velho;
3.
O
pai amoroso.
O FILHO QUE SE FOI
A distância entre o filho e o
pai amoroso.
Os versículos que seguem
narrando à ida do filho, se compõem de dois pontos, no primeiro veremos quando
o filho se distancia do pai. E no segundo, quando retorna e se arrepende.
Na separação, o filho
mais novo pede a sua parte da herança a seu pai. Lembrando que, conforme o
costume da época, o filho primogênito recebia dois terços da herança, enquanto
o filho mais novo recebia apenas um terço, se caso houvesse mais irmãos, o
filho caçula receberia ainda menos.
O pedido de herança pelo
filho mais novo era ofensivo, representava a separação entre os membros da
família, esta exigência era considerada como uma morte entre os familiares - Pois este meu filho estava morto e voltou à
vida; estava perdido e foi achado. E começaram a festejar. (Lucas 15:24).
Já com sua herança em
mãos partiu para uma terra distante, provavelmente Roma ou Antioquia (Era
costume dos jovens mais ricos irem a estes lugares em busca de diversão), e
desperdiçou seus bens, esbanjando de maneira inconsequente. Era um judeu
solitário em um país estranho e distante, sem dinheiro e quem o pudesse
socorrer. Diante de uma crise de fome, se vê sem saída e se depara trabalhando apascentando
porcos, a maior humilhação para um judeu, pois os porcos eram considerados
animais imundos e não poderia tocá-los. A fome era tanta que ele desejava se
alimentar das alfarrobas que os porcos comiam, demonstrando o quanto era
degradante a sua situação naquele momento.
Esta ida lhe trouxe
bastante prejuízo. Separou-se de sua família, faliu, precisou manusear porcos,
e por fim passou fome ao ponto de sentir vontade de se alimentar das
alfarrobas.
“Quem semeia para a sua carne, da carne
colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida
eterna”. (Gl 6:8)
Este primeiro ponto
simboliza o quanto a humanidade se distancia de Deus e o tamanho do prejuízo causado
por viver em seus delitos e pecados. Pois é isso que o pecado faz com o ser
humano, nos distancia da presença do Pai, nos prende cada vez mais às
concupiscências da carne, nos levando a destruição e por fim a morte (Rm 6:23).
Existe uma maneira de se
livrar das consequências do pecado, uma forma que nos aproxima do Pai e da Vida
Eterna. Esta forma é o arrependimento.
“Arrependa-se
dessa maldade e ore ao Senhor. Talvez ele lhe perdoe tal pensamento do seu
coração” (At 8:22);
“Arrependam-se,
pois, e volte-se para Deus, para que os seus pecados sejam cancelados, para que
venham tempos de descanso da parte do Senhor, e ele mande o Cristo, o qual lhes
foi designado, Jesus”. (Atos 3:19, 20).
O segundo ponto desta
primeira parte nos narra o arrependimento deste filho.
No v. 17 - “Então, caindo em si”, nos mostra o primeiro
passo rumo ao arrependimento, depois começa a refletir no tratamento que recebia
quando estava na casa do pai, entende como o pai se relacionava com ele. Então
declara as palavras de arrependimento, v. 18 “Eu me porei a caminho e voltarei para meu pai, e lhe direi: Pai pequei,
contra o céu e contra ti”.
Apesar das circunstâncias,
que se encontrava, ter sensibilizado a cair em si, este não foi o motivo real
do arrependimento, pois quando declara que pecou contra o céu, ou contra Deus,
ele entende que ao sair de casa e magoar profundamente o seu pai, afligiu uma
lei de grande importância para um judeu, a de honrar o pai.
Muitos ao se arrepender
acaba cometendo um erro grave de não ter a atitude de se levantar de sua zona
de conforto e confrontar o orgulho, ir ao encontro daqueles que ofendeu e pedir
perdão pelos seus atos. Outros se arrependem, porém voltam a cometer os mesmos
erros, não se tratando de um verdadeiro arrependimento, pois o arrependimento
deve provocar uma mudança de pensamento ou de caráter (metanóia). Devemos
lembrar que o arrependimento é a principal exigência para que haja perdão dos
pecados. “Pois eu não vim chamar justos,
mas pecadores” (Mateus 9:13).
O
FILHO MAIS VELHO
Um
relacionamento entre um pai amoroso e o outro filho perdido
“Eu lhes digo que, da mesma forma, haverá
mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove
justos que não precisam arrepender-se".
(Lucas 15:7)
Exatamente desta forma
que o filho mais velho se sentia. Justo, legalista, sem erros, cumpridor exímio
dos mandamentos.
O seu comportamento
diante da noticia revelada pelo seu criado, em que seu pai promovia uma festa
pela volta do seu irmão, nos demonstra revolta. Diante disso, começa uma lista
de acusações e insultos direcionados ao seu pai, revelando que por mais que ele
se achava tão correto, nada o diferenciava de seu irmão mais novo.
Vejamos alguns termos
proferidos pelo filho mais velho:
§ “há
tantos anos te sirvo”, dizia literalmente “tenho trabalhado como escravo há
tantos anos”, ou seja, tudo que fazia e praticava era por obrigação. Não era
próximo de seu pai, não tinha intimidade entre pai e filho. Por mais que estava
ao lado de seu pai, não o conhecia.
§ “Jamais
transgredi uma ordem sua”, este trecho declara que por ele ser um filho
legalista, obediente as regras e leis, era melhor que seu irmão, por
conseguinte, seu irmão não merecia tamanha consideração, devido a tantos
delitos cometidos.
§ “Nunca
me deste um cabrito”. Na comparação que faz entre o cabrito e o bezerro
(lembrando que o bezerro era bem mais caro) ele reafirma que era mais merecedor
que seu irmão, mediante a tudo que ele fazia. Era cheio de autopiedade.
O filho mais velho
compreendia que a recompensa do relacionamento entre ele e seu pai seria por
mérito próprio, pois cumpria todas as regras ordenadas, era fiel as leis e se
esforçava para manter a fazenda produzindo. Acreditava fielmente que seu pai o
valorizava somente por tais coisas.
O grande problema do
cristianismo protestante deste século é achar que será recompensado pelas suas
obras e por se manter “fiel”. Acreditam que com seus próprios esforços
conquistarão o grande objetivo. Por isso temos uma grande quantidade de crentes
frustrados que buscam por algo que nunca conquistam. Muitos destes estão depressivos
dentro de suas igrejas, ou, tão irados que chega ao ponto de aderir o ateísmo
como crença. Filhos perdidos.
“Pois vocês são salvos pela graça, por meio
da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém
se glorie”. (Efésios 2:8, 9)
O
PAI AMOROSO
O
pai amoroso e seus dois filhos perdidos
“Porque este meu filho estava morto, e
reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se”. (Lucas
15:24)
Como um pai poderia
continuar amando esses filhos, como não poderia se sentir frustrado diante de
tantas decepções, e não desistir destes filhos que tanto erraram com ele. Pelo
contrário, ele os tratou ainda melhor, com mais atenção e carinho.
Vejamos a maneira que
tratou seus filhos:
O
pai e o filho mais novo:
Mesmo
com tamanha ofensa, o abandono do lar, ter desperdiçado tudo que tinha herdado,
transgredido as leis de Deus e do pai, ele se assusta quando assisti o pai vindo
ao seu encontro, pois reconhecia que não seria mais considerado um membro da
família.
O pai corre ao encontro
do filho, abraça e beija – uma demonstração visível de amor e humilhação. Ele pede
aos seus servos para pegar a melhor roupa (reservada para um convidado de
honra), colocar um anel no dedo (representando a filiação, pois só membro da
família usava anel), sandálias nos pés (demonstrando que era um homem livre. Os
escravos tinham suas sandálias removidas até serem livres, assim recebiam novas
sandálias) e o melhor bezerro, que era preparado para ocasiões especiais e
convidado de honra.
O
pai e o filho mais velho:
Ao se
informar sobre a festa que seu pai estava oferecendo para seu irmão, ele tem
uma mistura de sentimentos como orgulho, egoísmo, ego e mágoa.
Começou uma série de
ofensas e acusações direcionadas ao homem que, mesmo diante de tantas palavras ofensivas,
o tratou da mesma forma que o filho mais novo. Foi ao seu encontro, conversou
humildemente, convidando para festa. Comportou-se com o mesmo amor. Mesmo assim
não resulta nenhum ato de arrependimento.
CONCLUSÃO
A relação entre os
irmãos nos deixa claro que, quando o irmão mais novo pediu a sua parte da
herança criou uma divisão entre eles, que perdurou por muitos anos, exemplo
disso foi a atitude dele em relação à comemoração pela chegada do seu irmão que
estava perdido. Ele se sentia no direito do melhor diante de tudo que fazia
pelo pai, enquanto seu irmão esbanjava em outro país.
Ambos os filhos são considerados
perdidos e necessitados do amor incondicional do pai, pois a filiação não se
baseia no ato dos filhos, mas no amor do pai, que não mediu esforços para ir ao
encontro deles.
Jesus ao mencionar esta
parábola aos fariseus, quando estava com os pecadores, ele declarava que o amor
do Pai não se atribuía na atitude, no esforço ou na benevolência da humanidade,
mas da Sua graça, que procura e sofre a fim de salvar.
Esta parábola nos leva a
reflexão que precisamos ser achados pelo Pai e nos regozijarmos no Seu imenso e
incondicional amor. Ter consciência que Ele não se agrada de nossas atitudes
pecaminosas e sentimentos ofensivos, que só servem, senão para nos destruir e
afastar do grande amor do Pai. Que nós Cristãos, cheios de justiça própria,
egocentrismo, venhamos nos juntar aos pródigos e a Cristo para esta festa
alegre, que ele preparou para os que ele encontrou.
Que o Senhor Jesus possa
vos encontrar, vos abraçar e por fim amar, trazendo para o aprisco, festejando
o grande dia do Senhor na eternidade.
Roberto
Viana
Bibliografia
· Comentário
Bíblico Broadman/ Tradução de Adiei Almeida de Oliveira e Israel Belo de
Azevedo. — Rio de Janeiro: JUERP, 1983—12v. (Vol. 09; p. 152-155);
· Morris,
Leon L. Série Cultura Bíblica Vida Nova - Lucas Introdução e Comentário - l.a
edição: 1983 Reimpressões: 1986, 1990, 1996, 1997, 2000, 2005, 2006, 2007; (p.
225-230);
· Comentário
Bíblico Moody – Lucas (p. 70-72);
· Bailey,
Kenneth A Poesia e o Camponês. Uma analise literário-cultural das Parábolas de
Lucas (1985, p. 208-256);
· Bíblia
de Estudo de Genebra, 2ª ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil; São
Paulo: Cultura Cristã, 2009. 1984 p. (p. 1348, 1349);

